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Laurien

BRUNO MELLO

CONTOS DE AMOR, HORROR E MORTE.

Provenho de muitos lugares, caminhos tempestuosos da imaginativa
mente de BRUNO MELLO que descreve tal senciência, com efeito,
de que sem IMAGINATIVA este conto jamais seria
transcorrido e de maneira que a ela és dedicado
para simples distração da mortalidade.



CONSIDERANDO QUE EU ESTEJA LOUCO…


… embora nenhuma área da ciência comprovou se a loucura é ou não a mais sublime de todas inteligências. Então vejamos. Empreste-me vosso ouvido, pois estou definitivamente predisposto a lhe contar como pude estar nesse estado de morte que me encontro. Sim, estou sem vida, não que estivera com vida em meu estado de carne e osso, pois o mal de todo poeta é não saber se está vivo ou morto. Em meu caso, considero-me apenas louco.

Sim, repito, a luz se afugentara desta vida! Totalmente dissipada. Mas devo lhe contar desde o principio, que eu, Thomas Lis, desde minha infância, jamais fui como os humanos viventes, minhas alegrias e prazeres não eram providas das mesmas fontes que as deles, e o canto era outro que me chamava, o vigor de minha imaginação era notável, porém, não reconhecido, tão pouco memorável.

Quando me ocorreu este estado plausível de minha existência, pois começo achar que a vida só começa quando morre, encontrava-me em pleno esplendor de minha juventude, o ardor da paixão rubricava-me, fantasiava de um pensamento efêmero, embebecido pelas chamas que me arborizavam. Meu íntimo era vitalizado por Eros, e na imaginação, vivia a contemplar a imagem de Laurien Lis, a mulher que eu desposara. Que foi subitamente levada com prontidão pela morte rubra (peste negra) semanas depois de nosso casamento em Bristol. Jamais soube ao certo se a fuga dela deste mundo era real, incontáveis sensações e visões turvais, sentia eu, a presença de minha singela amada, e ouvia um soar embalador ritmando oque seria o teclar de um piano, a mais bela melodia, exceto a voz de Laurien.

Como poderia eu estar depois da passagem de Laurien pelas arcadas do céu? Louco? Por não denunciar ocupações da beleza de minha mulher com as inspirações devaneadoras de um gênio romântico. Sim, estes são os pensamentos das multidões, estas são as especulações de todos os sofistas, devo concordar. Mas como deveria eu estar? Não como me encontro, talvez.

Deveria eu estar dissipando de uma vida de sublime meditação e melancolia em meu quarto de sombrias visões. Assim estou. Cálido! Onde depusera de fronte a minha poltrona, quando buscava conforto nos contos de Poe, estava o quadro que eu mesmo pintara de Laurien, escorado em um amontilhado de livros. Ia lá pensando, arqueado sobre o meu próprio desespero! Vinha-me a memória, como de um exemplo de beleza, assegurando tê-la visto em meus sonhos, que em parte, para alívio de minhas tristezas. Recordei-me da aliança de amor eterno, uma semelhança de tristeza e horror em que minha amada deixou-me. E que, assim como na ética o mal é uma consequência do bem, da mesma realidade, da alegria nasce à tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as amarguras que existem agora têm sua origem nas alegrias que estariam por vir.

No alto de minha torre, onde fiz morada para meus pensamentos e noites flamejantes onde Laurien me fizera duas vezes homem, no entanto, não há lugar mais cinzento neste país do que está velha casa, onde resido desde os dias felizes com a figura angélica de minha bela amada que agora os anjos a chamam no céu.

Entretanto, em muitos pormenores notáveis, do caráter da velha e mórbida casa, nas pinturas sem cor dos corredores, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzentas colunas de armas, porém, mais especialmente, na galeria de quadros no estilo da biblioteca, de uma natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que o suficiente para um homem buscar erudição, um imponente lustre de cristal era notável no salão principal, estava décadas ali, dando lugar ao que seria um domo que eu planejara construir, instalando um telescópio astronômico, e, por fim, a idosa escadaria, de remota época que sobrevivera a bombardeios da segunda grande guerra. Recordações de meus primeiros anos estão intimamente ligados àqueles degraus de madeira e aos seus volumosos ecos, onde o sol se encontrava todas as manhãs com os vãos de seu corrimão desenhado por um verdadeiro artista munido de um formão, suas veredas em sombras de intocáveis pilastras dignamente construídas por gregos. Arquitetura impecável. Escada que me traíste.

Derradeiramente, minha visão ficou nevoenta, balbuciei palavras com relutância de meus pulmões. O ar, enroscando-se furtivamente, intrincado em meio à faringe e a laringe, passava finalmente através de uma garganta trevosa. Levantei-me, com efeito, procurando algo em que pudesse agarrar, minha visão ia morrendo rapidamente, lancei-me aos pés do quadro que contemplava, quando em pé ali estava, com o pensar pesado, a reação foi incalculável, minhas mãos já estavam cobertas com a imagem em tinta óleo de Laurien. Revelando um eu desconhecido e desesperador, transferindo-me de um amor que o me fizera imortal, para um profundo mar de águas melancólicas, com profligar de amarga reflexão, onde guardava os segredos de suas águas enegrecidas, fazendo-me vitima mortal.

Caminhei rumo ao salão principal, a fim de aspirar beclometasona, reagindo, aniquilaria o anelar do cansaço. Mas, ao transpor a barreira da vereda do tempo formada pela sensação de morte, com o prelúdio de minha partida ao continuar a segunda era de minha existência, sentia eu, que uma sombra se espalhava no meu cérebro, não confiando em meus sentidos, logo me vi em frente às escadas, oque era trinta ou mais degraus, se tornara um gigante e longínquo precipício.  Agarrei-me, apertando em minhas mãos tremulas o corrimão, sentia as cavidades que feria a madeira com farpas que mais pareciam facas.

Ao tocar de meus pés no que era o segundo ou terceiro degrau, o sólido reduziu-se a pó, em meu malfadado pensamento, amaldiçoei aquela escada. Ao tentar retirar o pé engolido pelo que agora se fizera de armadilha, depusera uma força hercúlea totalmente desnecessária, com o esforçar de meu débil corpo, senti-me como se me prensasse o peito, a respiração ficou mais curta, desequilibrei-me, minha mão salpicada de sangue que as farpas com impecável perfeição desenhara eu via, sem poder conter o poder da gravidade, girando-me, como em uma valsa, meus olhos contemplavam o efeito de luzes distintas e turvadas, a parede onde havia janelas sempre trancadas nunca fora tão interessantes, meus olhos, percorria o teto de um mosaico enegrecido pelo descaso, partículas de uma matéria pulverulenta que expulsara a lareira, envolveu-me como de um pó magico enegrecido, era penetrante o sentido da visão, acima de tudo, via eu o inatingível, acimas do céu e abaixo das terras, estaria eu louco?

… Quando me apareceu a imagem de minha intocável amada, Laurien.

Sentia que meu sangue enregelava-se, estiquei meus compridos braços para que alcançassem Laurien, tudo acontecia lentamente, quase parado, o silêncio tomara o lugar, os ponteiros de meu relógio mover-se-ia mais rapidamente que meu corpo em queda, a imagem que era real de minha eterna amada, gritara com um gemido de um terror mortal, um grito notável de que não era de dores ou pesar… oh, Deus! Era um som grave que se ergue do fundo da alma quando sobrecarregada de medo e horror. Meus olhos estão me enganando? Uma alma que fora feita para paraíso, que agora, chamas do inferno se levantam, consumindo-a, sequestrando um anjo que caíra do céu, para terras infernais.

Com o terror em meus olhos, invoquei o Supremo Senhor do Universo, que me levaste no lugar de Laurien. Com efeito, de seu trono sagrado, ouvisse a prece desesperadora de um amor sincero que lhe ofertara, desta terra cinzenta e esquecida, de um filho pecador que o criara, que me deste o amor que sempre o sonhara, que agora, era consumido pelas chamas de Hefesto. Por direito que és de um anjo, dá-lhe a vida eterna a minha Laurien, e perdoaste-me por só agora ter te conhecido. Se puderes salvar uma única alma, que sejas de minha amada. Suplico-te! E conceda meu único pedido.

Destemendo o terrível presságio dos portais de profusa tormenta que me aguardara, entregando meu sangue, dividindo Minh’ alma, nada mais sentia, nem o frio em que inverno esculpia fora de meus umbrais, nem mesmo o calor das chamas que vira dentro de meus portais, horas tais que meu coração batera opresso, me fiz forte, nunca tivera tanta fé como naquele instante, desprendi-me de tudo que havia vivido como de um despertar, semelhante ao sono da morte, onde pudera reconhecer que nenhum triunfo do mundo fizera livrar Laurien de todo o tormento, a não ser pela minha vida.

Desde os tempos mais remotos, em toda história és assim, para que viva, outro precisa morrer, seria bondade de um amor incondicional, ou loucura corromper-me, teria eu de passar pelo inferno para reconhecer o céu? De fato, não estaria salvando somente minha amada Laurien, serei eu o libertador de todos que morrera por amor, como prova eis-me aqui, por ela, enfrentarei o meu terrível destino, este é o preço, e a moeda é o meu sangue.

O tempo foi restaurado, Chronos devolvia às areias a ampulheta, enquanto Kairos se apontara para sua ilustre chegada, o ar se tornara denso, voltei ao meu estado de fragilidade humana, oque era trevas, se transformara no nada, o salão principal voltara a ser o mesmo, velho e mórbido. A gravidade se fazia presente, meu corpo agora se encontrara com o solo, o ar se extinguira, o sangue jorrava pelas minhas têmporas e cavidades facial, uma poça vibrante como preciosos rubis se acumulara ao meu redor, todo tecido conjuntivo líquido que circula por meu sistema vascular sanguíneo, fora de meu corpo, minha visão não se fixava em ponto algum, meu corpo não correspondia a nenhum comando de meu sistema nervoso central.

Vendo que a luz de minha vida se desvanecia, sem saber ao certo se minha consciência me enganaste, pensava eu estar delirando. Seria um sonho num sonho?  Veriam meus olhos os labirintos infernais que minha mente criara embasada no medo e no desejo que havia em meu espirito em reviver os encantos de Laurien? Seria eu a causa deste pensamento que me possuía? A minha compaixão por minha amada purificaria o meu espírito? Teria eu de me redimir com Deus por amar Laurien acima de todas as coisas? Acima do próprio Deus?

Com o sopro de vida que ainda me restara, clamei por piedade, seria eu o um quarto que indaga o ser pensante? Conhecedor da própria essência d’alma através da loucura?  Como Voltaire declara que ninguém terá respostas a esta questão, a não ser Deus. Mas que entendes tu por estas palavras?  Logo, encerro esta forma substancial, a vida! Poderia minha razão dar-me alguma conclusão, sem um recurso sobrenatural, que sejais a fé, da certeza de que exista uma alma. Seria sua natureza o pensar, sim, a matéria, um átomo, mas como pensaria um átomo? Deveria eu aceitar os enigmas impostos por Deus ou morrer com essa indagação? Não submeteria eu a uma vontade maior que a existência de um Deus nem mesmo me render inteiramente a própria morte quando batera em meus portais. Pois assim sendo eu um morto, me tornaria a própria morte.

Fixei meus últimos esforços em meus pensamentos, com a lucidez que voltara, comecei a perceber que aqueles eram os meus últimos minutos. Aceitando meu estado, sem saber da existência de uma alma que me abitara, com esforço, rasquei-me por completo, pedindo perdão, entregando nas mãos do Pai o meu espirito, com a consciência de que seria eu julgado com a justiça de Deus. E se este é o meu fim, abraço-me satisfeito com a minha breve vida! E ainda caído moribundo em meu próprio sangue, com uma voz fraca e muito lentamente, recitei “O Corvo” de Edgar Allan Poe:
…e a minha alma para fora dessa sombra que flutua sobre o chão não se levantará mais…

“NUNCA MAIS.”